segunda-feira, 15 de novembro de 2010

A COR DOS VERSOS


versos cor de pele
conscientes e maduros
jogam por terra o objeto
e tornam-se herdeiros dos filhos da Terra
flui no sangue vermelho das veias azuis
cor negra dos versos na mestiçagem das letras
que compõem canções , que ressoam tambores
e que rezam a vida pela crença
a alma tinge palavras
emoções remexem memórias do berço, do tronco, da casa
da acentuada cor do sentimento que se escorre no poema
inerte da dor do tempo em que o açoite era sem eira,
a duras penas
do olhar nos olhos do ser imperfeito
enveredando nos versos os sonhos da grande viagem
de volta a meu berço
de onde fui arrancado, deixando o reino, família, congado
minha sina adotada nos terreiros teus
mistura de cantos, de sons, de batuques, de festas, reisados,
de dança e magia

do lado esquerdo cicatriz no peito
uma ferida se abre rubra e sangra
até desfalecer em minha lembrança
e calar-me no grito preso na garganta.

Já posso dizer poesia de negro,
contando a história sem atrofias
cantando no tom da cor culta, senhor!

Por que há um colorido novo
sei que posso escrever as minhas próprias linhas
deixei de ser somente o objeto de estudo
sou manifesto, origem humana
falo do amor, do que tenho e o que falta
para que todo o universo da gente
conheça e reveja os “conceitos” vigentes
e reconheça o colo da mãe

África...



CAMPOS, Graça. Poema. A COR DOS VERSOS.

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