terça-feira, 23 de novembro de 2010

NATAL ASSIM


Foto Pessoal 

Imagem do Google

Natal assim...
Cidadezinha rica de histórias que se revelam no vai e vem das lembranças por se tornarem verdadeiros tesouros em nossa memória, pelas andanças dessa vida! Onde as montanhas esbranquiçadas deixavam no ar um cheiro de sereno, convidativas que eram ao aconchego daquelas noites de se juntar a lenha e deitar fogo no fogão para aquecer a gente, os adultos e crianças. E os vizinhos não faltavam no quadro daqueles afetuosos encontros até certa hora em que se recolhiam cada qual em suas casas. As ruas estreitas, casarios coloniais, praças, boiada, burros de carga, cavaleiros, brincadeiras de roda, quintais fartos de frutas, muitas histórias, festas religiosas são personagens imortais da infância dos dias marcados no calendário cheio de crenças, lendas, causos, poesia e família...
As tradições faziam da pequena e velha cidade mais imponente e provocadora de certo temor, respeito pelo misticismo pregado pelos mais velhos. Os preparativos já se tornavam festividades, o cheiro, o ar, os rostos, as vestimentas, verdadeiros paramentos, indumentárias que se moviam na fertilidade do imaginário. Minha mãe zelosa preparava aos sábados e às vésperas de dias de festas, deliciosas massas de pastéis, bolos, doces entre outros quitutes.
Ouço ainda a música dos sinos e a linguagem de cada um. Vejo casas enfeitadas de um jeito diferente onde lanternas feitas de papel laminado de cores variadas, decorativas peças reacendem iluminando a antiga sala, a pequena árvore natalina feita de galhos de jabuticabeira, coberta com flocos de algodão...

Dezembro corria com chuvinha fina e costumeira daquele mês ansiado especialmente pelas crianças, que pareciam sentir o perfume de promessas enchendo-lhes de esperanças os sonhos...
Viam-se corajosas mulheres carregando em suas cabeças rodilhas, que sustentavam bacias de musgos, de um verde tão musgo! Tarefas que se estendiam até que todas as casas fossem ornamentadas com os mais singelos arranjos vindos dos campos. Nos braços, as peneiras de taquara abarrotadas, também verdinhas de musgos escolhidos com paciência e gosto. Oferecidos de porta em porta eram vendidos ou trocados por algo necessário para as donas vendedoras... Haveriam de decorar as grutas, os presépios armados na sala principal de cada lar. Rezava-se a novena. Minha idéia fervilhava ao observar o berço vazio, e, ao lado, as personagens Maria e José, pastores e ovelhas, o boi e a vaquinha. Bem no alto, um anjo e a estrela de cauda. Eu ficava sonhando com a noite em que o menino nasceria...
Reis negros visitantes também compunham o cenário.  Magos de nomes interessantes jamais esquecidos. Afinal, Belchior, Baltazar e Gaspar vinham de terras longínquas trazendo incenso, ouro e mirra para presentearem o recém- nascido.
No dia 24 lavavam-se as casas, algumas eram enceradas, às mesas estendiam-se toalhas bordadas de crivo, de cetim adamascado e de muita renda. As pedreiras (assim chamados os passeios) esfregadas com folhas de pita, que espumava deixando as pedras impecáveis, chegavam a ter uma cor de pedra azulada.
Os temperos misturavam-se ao cheiro da emoção da criançada que aguardava pela bola de massa de pastel, brinquedo nas mãos das mães e cozinheiras. Aves, carnes, vinhas, salgados e doces estariam prontos e deliciosos para a grande noite...
Naquela época éramos quatro irmãos em casa. Eu menina, a primeira, e mais três meninos. Crianças brincalhonas, felizes e sonhadoras, repletas de crenças e fantasias... Chegado o momento do banho, à tardinha, descansar meninos e massa de pastel. No início da noite a neblina, cena infalível das noites natalinas daqueles tempos. Uma pitada a mais para todo mistério do advento. Minha rua carregava muita gente dos arredores. Não faltavam à missa do galo. Só para gente grande! Tentavam explicar as mães. Enfrentavam distância, e logo se ouvia lá fora o movimento dos “fiéis” assim chamados pelo vigário.
Vestiam o melhor traje e rumavam para a igreja. Eu ficava a imaginar como seria a tal missa do galo...
O friozinho, a neblina, os sinos, tudo instigava um clima perfeito para uma noite especial.
Meu pai chegava de viagem, como sempre, trazendo frutas e doces diferentes de fora, falava-nos dos lugares, da viagem, contávamos as novidades. Após o banho, o pijama de listras discretas, um par de chinelos ele e minha mãe de chemisier descansavam depois de tudo quase pronto. Em nossa casa era costume ceiar mais cedo. Delícias de pastéis de minha mãe, recheados de carne moída com batatinhas...
Tudo simples e delicioso temperado com amor. O espírito do natal nos visitava e também os lares onde um reino de fé e de esperança aguardava pelo nascimento de Jesus menino. Não dormíamos sem antes verificarmos os sapatos, esses reservados para receber a visita do Papai Noel. Era uma noite incrível, feliz. Eu sentia calafrio, batia o queixo tamanha emoção, expectativa embora estivesse bem agasalhada por cobertores de lã. Era costume nas noites daquele serro frio, que um dia chamara “Morro dos Ventos Gelados, na língua dos seus primeiros habitantes. Fazíamos as preces, uma delas, ensinada pela minha avó, e madrinha fervorosa, religiosa.

“Santo Anjo do Senhor, Meu Zeloso e guardador”...

Aí sim, pegávamos no sono. O bom velhinho, diziam, sistemático, as crianças não podiam vê-lo.
Usava imensas botas, barbas brancas, trajes vermelhos, homem forte carregava um saco de brinquedos acompanhados de magia, trenó e renas.
- Como é que ele passa, se as portas e janelas são fechadas por ferrolhos e trincos?
De todas as bocas adultas vinham lendárias respostas satisfatórias que ainda tecem fantasias da infância.
Era a vez da passagem pela chaminé... Os sonhos rolavam profundos, assim era também o sono.
Ao amanhecer, os sinos soavam e as pessoas já se levantavam para festejar o nascimento do Deus Menino. Eu acordava e esticava os pés até o final da cama onde estavam os sapatinhos. Que sensação gostosa sentia ao ouvir o craf- craf dos pacotes de brinquedos. Do meu quarto ouvia-se a algazarra dos três meninos irmãos no quarto ao lado. E juntávamos todos a mostrarem uns aos outros os presentes.
À tarde visitávamos os parentes e apreciávamos os presépios cada qual mais belo e já completo, com a presença do personagem principal deitado em berço de palha.

Nascera o Deus menino! “Hosana nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade!”

Eu havia passado muitos natais assim até que, certa vez, ainda na infância,ao chegar à janela do quarto de meus pais, uma paisagem estranha me chama a atenção! Por detrás de um morro centenário, que dava para um lugarejo de nome de santo, havia uma humilde família numerosa, e um dos meninos de nome indígena contara-me, em sonho, um sonho de criança. Seus olhos tristes revelavam-me descrença. Contou-me de sua decepção, pois, pedira um presente, mas não podia entender o motivo pelo qual lhe fora negada a visita de Noel.
Cresci imaginando um dia, ver o menino do sonho... Passaram-se natais quantos...
Na cidade grande, já no final de outubro, inicia-se o movimento nas ruas, nas grandes lojas, shoppings, supermercados... As pessoas costumam antecipar as compras de final de ano desde os alimentos às lembrancinhas e presentes aos amigos. Há os que sempre deixam para os últimos dias, causando-lhes ansiedade e cansaço por tamanha correria. Há quem arme em casa os presépios e luxuosas árvores, e distribua inúmeros presentes... Para muitos, o Natal não passa de mais uma festa, para outros é uma data de lembranças fortes e de saudades... Para a criançada sempre o sonho de uma comemoração. Misto de fantasia, de fé e de esperança no olhar de tantos pequeninos que confiam em uma noite especial...

Para aqueles em cujo sonho mora a criança de infância perdida,
há em cada abraço, em cada presente dado e recebido,
e, à mesa, posta a ceia, a bênção de uma família construída,
resgatando em cada sorriso de filho, de amigo ,
todos os natais que lhe foram negados...

Para quem comemore o nascimento do Menino Jesus,
há corações em festa, celebrando a luz da noite e do dia,
e um desejo grandioso de um feliz natal de amor
e de paz aos homens de boa vontade!

Imagem da web

Graça Campos, 09/11/2010.
CAMPOS, Graça. CONTO. NATAL ASSIM.

5 comentários:

  1. Essa linda história!!! Natais de encontros e reencontros! Só mesmo o "Noel" para saber o que nos trará de presente para a vida! Bjos, Ka

    ResponderExcluir
  2. Voltei ao tempo. E chorei...Revivi momentos que remeteram à minha "LINDA" infância. Tudo muito parecido! Natal de aconchego, de alegria, de extrema união familiar! SAUDADES! E eu ainda guardo em meus sonho, a criança de minha infância que se foi. De certa forma sou feliz, porque fui feliz um dia! Resgato, hoje, apenas tudo de mais belo que ficou. Obrigada por me fazer sentir assim! Que neste Natal, bem como nos outros que virão, O Cristo renasça dentro de você, como você o fez renascer em mim! Beijos!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Aí está a beleza quea memória eterniza! A fé, as tradições, a esperança em jesus, Caminho, verdade e Vida! Feliz Natal querida Maria De Fátima Cunha. Paz, e luz de amor transcendental!

      Excluir
  3. Graça, como me emocionei... Você retratou com fidelidade e de uma maneira tão gostosa, como eram os nossos Natais de criança. Eu viajei quase 50 anos de volta ao passado. E revivi momentos de uma vida simples, de dificuldades, porém de muitas felicidades e sem ambiçoes pelo material. Como eu era feliz, na minha inocencia, capaz de valorizar as pequenas coisas, que na verdade vejo-as como o maior e mais importante em minha vida. As emoções estao presentes ao voltar àqueles belos e maravilhosos tempos. Graça, obrigada por nos dar este lindo presente de Natal.A maneira que encontro para lhe retribuir é pedir ao Menino-Deus que renasça em seu coraçao, protegendo-a em toda sua vida.
    Que voce e os seus tenham um Natal de muita Luz e que o Ano Novo lhes traga grandes momentos de felicidade.Beijo, com carinho, Bebéia.

    ResponderExcluir
  4. Maria Amélia,confesso-lhe que emocionada, leio agradecida e comento com uma das minhas filhas (presente) que também se emocionou.
    Que delicioso saber que existem no mundo hoje, corações que pulsam musicalidade. É gratificante esse sentir a alma cheia da verdadeira essência humana! Obrigada, eu, querida Bebéia! Muitas bênçãos neste Natal, e que Jesus, nosso divino mestre ilumine nossos caminhos sempre! Feliz Natal! Feliz Natal para todos os seus também!
    Beijos

    ResponderExcluir