quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Versos partidos




A poesia que ignoras, faz de ti morada
Está adormecida em leito de descrença
Esquecida da vida, silenciosa, acabrunhada
Em choro sufocado por tua inclemência


No solitário andar de teus versos calados
Os pesadelos são gritos que tu ouves
Quando os desejos se aninham loucos
Nos desafios de uma ânsia, aos brados



E, lado a lado a cochilar me ponho,
A jogar fora o teu penar ao léu
E, ao acordar, me descobrindo em véu
De um doce lirismo, mas tristonho



Tropeço, sonolenta, nos versos caídos
E cuido de apanhar sentido mudo
A poesia machucada agoniza e é tudo
Como quem quer juntar cristais partidos...


Invento alguma forma de colar as rimas
Da criação que se trancou no caos
Eu vejo a calmaria do alto das colinas,
A poesia- musa ao mar, e o acenar às naus...

“Cais”...





Graça Campos, 23/09/2012
CAMPOS, Graça. Poema. Versos Partidos. Imagem do Google

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

AMANHECER



O TEMPO À FLOR ...




Tarde de agosto, final de mês, pressa do dia. Como se não bastasse a maratona das manhãs que se foram. Sol se pondo trás das serras, hora forte, das mais fortes... Tempo seco! Luz e sombra nas paredes próximas. Meninada sinaliza à saída da escola. Oscilam as horas mornas e a frescura dos derradeiros ventos do mês. A umidade é crítica. Tudo certo. A vida é movimento, e vamos nós...


Sempre estive atenta a detalhes da natureza. Encanta-me a linguagem na voz das coisas. Há certo mistério nesse linguajar... E eu gosto de sentir esse envolvimento que me traz energia vital! A paisagem está mudada. Vem se recompondo e o viver é exatamente assim. Ir e vir, desnudar-se e vestir-se, semear, colher e plantar e colher...


Na cidade, uma das avenidas é palco de notável manacá esbanjando beleza e fragrância do branco e lilás.

Em casa, um cheiro bom de café fresco e bolo de abacaxi. Lá fora, outro cheiro desabotoa novas vidas. Pequeninas princesas experimentam lindas vestes para o primeiro verão. Acrescentam os últimos preparativos multicores, leves e brilhantes. Tenho a impressão de que usam os mais raros cosméticos e perfumaria. Mera impressão!... A maquiagem é irretocável, divina!


Quase noite! Sinto que a brisa vem trazendo recados. Está a soprar notícias e, boas, por sinal. Suavidade, chuviscos de prata, disfarçados em palavras de veludo, imitando pétalas. Chegam batendo à porta de minha saudade!... Meu tempo à flor da noite...

Lá fora, vibra a vida iniciando matizes, beleza ímpar dessas dadivosas e promissoras flores à mercê do orvalho, do frio da madrugada, e nova sensação faz borbulhar os pensamentos.


Mesclada de prece e sono, gratidão e desejos, sonho sonhos intensos onde as imagens tornam-se reais. E eu começo a contemplar o cheiro da doçura, o calor da companhia, a solidão serena, o olhar minucioso do desabrochar de outra manhã...

Setembro!

O tempo à flor do dia, da tarde, na fragrância do anoitecer, à espera de leve sopro, que sutilmente, fala de vida a tocar-me a pele, os cabelos, o coração... Nova primavera, novo florescer! E eu amanheço vida!




Graça Campos, 2012.
CAMPOS, Graça. O Tempo à Flor... Imagem do Google.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012