quinta-feira, 3 de julho de 2014

O SILÊNCIO DO SAPATEIRO



Havia um tempo onde os dias e noites são lembrados como contos mágicos. Onde as manhãs brancas se confundiam com as primeiras fumaças das chaminés e a neblina encobria além dos montes, os nossos telhados, mas jamais atingira os nossos desejos e  sonhos dourados...
Era um tempo de uma cidade brotando minúsculos passos e escolhiam-se as pisadas em cada pedra calcada...  Ah, duras pedras, mas doces e saudosos pés de moleque.
Era uma rua sortida de risos, pouco siso. Quanto dente de leite...
Casas grandes com varandas, outras não, janelas venezianas, portões pesados, chaves de ferro, casas de estilos, antigas, antigas...   Moradores prendados, lado a lado formando uma família só. Pequenos trapalhões, combinando peraltices... Eram ricos detalhes assim como brilhantes...
Eram manhãs que se coloriram de alegria no viver mais belo e puro de uma era criança.
Eram tardes de sol trincando e escorrendo o viver. E os quintais povoados de sabor, fruta no pé. Eram noites de lua contando estrelas sem poder apontá-las, porque ninguém queria ter verrugas... E as histórias, e as lendas?  Um silêncio tão mudo, um tremor se sentia, e arrojava, meu Deus, tamanha fantasia... Personagens conseguiam se achegar e o suor descia.
Oh, contos inesquecíveis!  Oh, contadores também inesquecíveis! Quanta riqueza!
Hoje, ainda ouço os sons de minha rua. Arrepia-me a emoção que me causa breve suspense!
Um temor vindo da alma arrebata-me. Reconheço cautelosa os sons profícuos que martelam em meus ouvidos. Sonoridade  que encontro na memória musicista, porque o que ouço é cantiga, é gorjeio, algazarra das andorinhas, além dos sinos da capela...
Vejo ali, logo ali, manhãzinha, ainda um vento frio, uma simples janela se abrindo, uma só, a que dá para a rua, e após, a porta de madeira maciça que range avisando: A casa está aberta.
O senhor de porte alto, usa camisas azuis, calças em tom marrom e o infalível suspensório. Calça botas. Um dia pretas e em outro, marrons. Martela, martela, martela... E os pregos se vão encontrando os ajustes nos sapatos do povo.
Ele era sério, muito introvertido, compenetrado, mas cantava! Cantava um mantra que nunca pude entender uma só palavra, mas entendi a melodia que suavizava as batidas do martelo.

Quem conheceu o senhor que viveu muitos anos na rua de minha infância, conheceu o silêncio das batidas do martelo do saudoso vizinho, o senhor José Martins!


Graça Campos, 03/07/2014. 16:00


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