terça-feira, 2 de setembro de 2014

MARIA APARECIDA


Pintura Frederico Zandormen



No transporte urbano, rumo ao centro da capital, a Maria se achega, “APARECIDA”, e desenrola sua labuta atrás do sustento de suas crianças.
Pede licença, interrompe os assuntos diversos de alguns passageiros e inicia um discurso. E com seu carisma, e com seu olhar de mãe em busca do pão de cada filho, relata-nos:
“Senhores, peço-lhes desculpas por lhes interromperem nesta viagem, mas, após catar, recolher e entregar papelões, estou aqui na segunda jornada e ofereço-lhes pedras-pomes, boas para limpeza dos pés...
É este trabalho que me dá a condição de levar para casa o leitinho e os pãezinhos que alimentam meus filhotes todas as manhãs.”
Daí a pouco, desce Maria... Magrinha! Simpática! Sorridente! Agradecida!... Aparecida!...Para tantas outras jornadas...

Ah! As Marias!... Quantas há que se desdobram sem sequer se olharem! Aguardam pacificamente pela hora de se verem no espelho a se pentearem, até que se deem tempo. O tempo à espera... O espelho à espera da imagem sonhadora daquela que, para seu mundo sonhou um sonho bonito, vaidoso, enfim, sonho de Mulher!

Graça Campos
Belo Horizonte, 22/ 01/ 2008
Obs: Lembrei-me desse texto, quando nesta semana vi Maria novamente em sua segunda ou terceira ou quarta jornada.



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