sexta-feira, 17 de outubro de 2014

SABOR NATURAL DA TERRA





RECANTO

No pensamento, os cataventos giram catando os aromas do canto sonhado e batizado “RECANTO DAS FLORES”.  Leves movimentos, um balouçar entre o sonhar e crer. Realidade! Madrugada fresca... Cheiro de alecrim perfuma a cabeleira dos arbustos. Sopro de vida, gestação de quimeras que serão pura fragrância a exalar da jardinagem. Imagino a mágica mistura de cheiro e cor no despertar das flores ao abrir as janelas do aconchego.

Madrugada

O silêncio move a fé na floração da serra. O tempo cala para ouvir dos ventos o assobio. Inclina o capim como crina de animal no seu galope. Roda de moinho vai vertendo água. Água na pedra, fartura na mesa, fubá é ouro na boca do estômago...
Coragem na estrada é presença marcante. Mulheres e homens na passarela onde o pisar é o instante sagrado da busca. Lado a lado ressoam tagarelas a desprenderem alegria,  sustento da força e crença no chão onde brota a poesia...


Amanhecer

Por entre a névoa, ecoa o bocejar da serrania. Passarinhada é alvoroço puro no trafegar em fina cantoria. Na capoeira o jacu-caca grita estridente. Em evidência, o morador saudando o dia. Canário - chapinha, desfruta o fruto e o bem-te-vi solfeja o bem-querer. É beija-flor, e azulão cortando o campo.
Maria-tola em breve, será mãe. Arruma cuidadosa uma cabaça que, reciclada, transformou-se em ninho. À porta, o companheiro, é guardião. 
Lá longe a paisagem sinuosa divide céu e terra. Pedras gigantes visitam o firmamento Parecem dormir. Elas não dormem. Sustentam as esculturas de ancestrais cravados naquela cordilheira.

E o filho da terra, da varanda de seu sítio interior, vê e declama fantásticos registros de histórias de grandes descobertas. Um cocar imenso compõe os paramentos e revela o poder estruturado na serena face do cacique esculpido no ponto mais alto do azul do espinhaço. Uma guerreira imagem feminina fita as nuvens e reza ao campanário. Protege toda a serra, lavra a palavra em silêncio, reescreve os fatos de lutas e conquistas.

Imperiosas figuras ressurgem no olhar do caminheiro. Estátuas do tempo em que a vida andava por ali os seus primórdios passos. Tudo é calmo, tudo é muito forte e natural em seus devidos planos.

De mais alto, nuvens testemunhas da poeira da estrada vão criando formas e se vão...
Anjos e bichos, carruagens de sonhos, dão passagem aos milhares de carneiros da imaginação e se perdem de vista nos infinitos flocos de algodão. O sol arde na pele, doura a terra, o dia! Das cachoeiras a vida nasce e jorra e corre. No canto das águas, promessas que encantam.
Por um instante a tarde vira súplica na voz do sabiá: “Tem dó, sinhô, tem dó, sinhô”...

À NOITE

Mil sóis cintilam no negro veludo da noite!
Vislumbro a escuridão que torna possível perceber o cintilar dos astros. Arrepios na alma, no roçar da brisa que arrepia os poros e causa temor... Uma visão inusitada que solta o grito do silêncio e faz acreditar no impossível!

Confesso não estar habilitada para o baile dessa noite. Já posso ouvir perfeitamente a sinfônica. Cadência, ritmo, musicalidade... Quem sabe os clássicos pudessem acompanhá-los. Sapo-martelo interessante! Trabalha tanto, tanto, tanto! Bate o martelo com tal destreza! Sapo artilheiro marca seu placar: Gol... Gol... Gol.... Fiz gol! Sapo do Rock parte para a orquestra e canta: Rock... Durock/ Durock/Durock... E a sinfonia vai com a noite...

Apago as luzes. O céu está pontilhado e rebordado. O espetáculo cintila! Tanta grandeza! Cá, bem perto do chão, vagalumes acendem seus micro-faróis a estrelarem brandos versos brancos brincando de astros. Sono vem, vem meu sonhar.. Em minha volta, mensagens gravadas piscam-piscam palavras em prata:


AMOR RESPEITO GRATIDÃO
Contemplo a poesia que salta aos olhos e cala o coração!
PRESERVAÇÃO!
CAMPOS, Graça. Texto. SABOR NATURAL DA TERRA
Graça Campos, 28/10/2013. Fotos da serras Graça Campos
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