segunda-feira, 16 de março de 2015

A voz de teu Violão (O Reencontro).



A voz de teu Violão (O Reencontro).

Naquela  hora costumeira  em que a solidão batia forte, a  aldeia sonolenta  já cochilava ao som  harmonioso do instrumento favorito.  A lua andava escondida.
O breu da noite acendia o olhar negro para ouvir dos tons a melodia. As sombras em seus fracos contornos  não mais ocupavam espaços . Naturalmente a postos, aguardavam por outras luzes,  novo despertar.
Tudo calmo! Portas e janelas já cerradas. Apenas algumas flores  trabalhando. O dia há de ter  novidades perfumadas. São as flores do peitoril que se arrumam em novas vestes.
Lá fora o frio! O violão é pranto e o silêncio já não se faz mudo! Canções se espalham.
A aldeia dorme e sonha.  Sonhos remotos, amores perdidos no tempo, sonhos festeiros ao pé do fogo, sonhos fartos à mesa, abraços fortes e sorrisos frouxos.
A aldeia sonha o retorno de antigos moradores. Nas afinadas cordas, dançam doces desejos, os beijos roubados, as promessas  descumpridas e o grito da alma de cada sonhador...
Algo me desperta, atravessa  o arvoredo e vem correndo mostrar-me a doce imagem.
Um violão, o jovem violonista.  Cumplicidade entre um e outro. Tão forte e bela  trazendo de longe, um arrepio, um fio, a comoção, a espera tão desejada.
Ele brilha como estrela e, em seu traje perfumado, ainda exala o último cheiro de quimeras. Cubro minha face com o xale bordado, que sobrepõe  as vestes longas de um cinza desbotado.
No pensamento, nossos olhos  percorrem céus da existência. Percepção de olhares profundos!
Ali estava  o musicista de tantas serenatas com sua música magistral a arrepiar-me a alma ao  limiar de meu ser. Sons de Além-Terra, sons de Além-Mar...
A arte, personagem clássica no sentido disciplinar do artista. Os sustenidos a inebriar os ouvidos.
A guitarra dos tempos memoráveis de comunhão dos passos enamorados do fascínio das horas musicadas. Canções me conduzem ao salão nobre, rodopios das lembranças! Luz em nossos olhos dançarinos. Expressão indescritível de  nossos sentimentos, vibrantes sensações...
Quero ouvir mil vezes  a inesquecível voz  na canção: O “Brinquedo Proibido” que me abraça e brinca com a ternura das saudades.
Encanta-me a música, o violão e o violonista, intermédio dos deuses. E o artista não se perde em nós. Retoma a concentração, misto de talento e  sensibilidade.
A afinação são versos definindo a disciplina. A harmonia envolvente faz respirar a pureza da arte. Momento indescritível em que respiro a doçura do tempo e transpiro  fragrâncias das revelações.

Ao instrumento humano, o dom divino! Ao intermedium, a possibilidade da comunicação.
A imagem, presença mística, convida-me a adentrar sem medo, na visão detalhista das cores do mundo a nossa volta, o cantar de tudo.
Os gritos agudos, e os ais breves da continuidade das trilhas sonoras.
É que, se olharmos bem, dezenas de mãos angelicais  fazem de trampolim, as cordas da guitarra que enfeitiça os ouvidos de toda a minha aldeia!


Empresta-me teu violão, ensina-me a dedilhar... Vamos de novo cantar a nossa música dileta. Estou em estado Alfa! Ouço Brinquedo Proibido em serena serenata...
A voz de teu violão revela o amor que nunca morre, daquele que, eterno,  em fase de repouso,  acordou a aldeia em mim adormecida!
E trouxe-me dos sonhos dos desejos, o majestoso sonhar: O reencontro!



Maria das Graças Araújo Campos. 15/03/2015. CRÔNICA. A Voz de Teu Violão. ( O Reencontro).



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