segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

VIDA BORDADA

Vestida de verdades, embora rebordadas as vivências, os medos e mistérios se confundem. Misto de alegrias é desejo visionário que enfraquece as intempéries, ensurdece tormentos, transformando cordas vibrantes e sutis do coração em toques de arte.
A vida bordada impede a dor e as dúvidas, o mar revolto se dispersa, e o velejar das mãos entre linhas e agulhas é ponto de partidas e chegadas em constância e vigília. 
O que mais ousaria proibir a trama de tantas bordaduras,  fossem leves ou árduas e profusas, se, do fuso às agulhas em suas funções milimétricas e fontes criativas, segue assíduo, o curso da vida?
Vestida de cores anunciou-se ao linho branco e puro, o viés dos alfinetes aos crivos, cravando na memória da linhagem os Richelieus transbordando pensamentos, perfurando a textura nos desenhos e riscos emaranhados nas sendas das paixões, quando se punha antecipado, o esmero e a fé que moldou a peça exclusiva. (Haveria de ser feliz o ser amado que o vestisse).
Vestida de sonhos, deslizam em algodões e sedas os traços delicados esculpidos com os olhos da alma sonhadora mergulhada nas horas sossegadas... 
A vida bordara a mãos, fio por fio, os impecáveis relevos, laços e nós, dos afetos à secura da garganta ardente de choros recolhidos, no entanto, o brilho da arte sobrepunha com totalidade, a força precisa, o tempo nublado à espera, à espera... Contenções sediam espaço a semblante sereno, quase pálido, mas sereno, aguardando a perfeição dos riscos preenchidos. 
Ali, o silêncio foi Portal de Esperança enquanto mechas macias de linhas se confundiam com o veludo das mãos em beleza e exatidão que se expandia na arte irretocável.
O que haveria de mais bonito? A vida bordada, a floração da vida ou o perfume que vinha dos campos?
Da floração das lavandas, marcante e propícia fragrância se esbanjava, sem urgência, decerto sem imediatismo, sem saltar nenhum curso, e banhava de cheiro, o todo contido ali, bem ali!
Vestida de compostura de época, a visão sobrevoa o vazio sem vazio, e o coração ultrapassa os sentidos na busca do sentido além das vestes...
Bordando a vida, mãos a fios, bordados sonhos no algodão encomendado das nuvens, quando os ventos passeavam na pureza do azul e branco, tintas de céu, e o pensamento trazia de muito além, sedas ricas em tons de brisa e nas conversas com os vendavais, o linho colhido nos campos de sol -a -pique, novamente, mãos a fios bordando sonhos, pontos cheios, pontos cruzados, no zigue-zague dos olhos e entrelinhas... Fios de algodão colheram murmúrios de longas eras. E ainda hoje ecoam choro e risos, cochichos e desejos, cravando no direito e no avesso a formosura das quimeras.
Vestida a caráter, argumento e lida, abençoados foram e abençoados sejam os bordados da vida, do mais remoto ao que se há de criar para adornar a crença, a paciência, a sintonia entre as mãos e a cabeça das mulheres bordadeiras...
Vestida de gala comemoram-se as pérolas, em quantas lutas se recuperem a energia que faz da flor-mulher, a linhagem da alma feminina!
Em cada adorno em relevo, as notícias más ficaram a ver navios na  estação em que a idade se fora perante desventuras... Das aventuras um ar de nostalgia, saudade, sobrevivência onde a origem se faz presença na essência bem- vinda à ponta dos dedos que tocam os mais belos motivos da existência.
Vida bordada em flores de algodão, vida vivida em campos de colheitas.  Vida sonhada em tons azuis, e das verdes ráfias e linhos brancos, vida perfumada em campos lilases de alfazemas, vida bordada...
Maria das Graças Araújo Campos, VIDA BORDADA.  MG/ Brasil.
Graça Campos, 28/02/2016
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