segunda-feira, 7 de março de 2016

BATOM VERMELHO



BATOM VERMELHO EM MINHA BOCA É...

Uma cena que jamais será esquecida. Saí de casa nas primeiras horas daquela  manhã de inverno. Lembro-me do cachecol  e do casaco preferido feito sob medidas. Enfim, estava bem agasalhada, bem disposta e feliz. Seria o dia de atualizar algumas documentações. Decidida a organizar aquela listinha lembrete de anotações necessárias conforme a vida pede, fui em busca de soluções.
Até o centro da cidade tudo corria muito bem. O dia claro, friozinho típico, disposição e sonhos... Na avenida principal a beleza das árvores em grande estilo. Bem próximo, o parque com a imensa área verde a contribuir com a boa qualidade do ar. Sem contar com a beleza da paisagem em pleno centro urbano.
Segurava a bolsa bem forte.  Os “trombadinhas” eram o terror e, quando vistos ariscos para dar o bote pelas ruas, faziam com que as pessoas aderissem a tais comportamentos. O salário sagrado, sustento e alegria do labor e dignidade continha o suor e sangue da mulher que cresceu com a firmeza de honrar seus compromissos.
Teria que tomar nova condução e assim o fiz. Outro ônibus rumo ao endereço anotado.  Fila longa o bastante para exercitar a paciência. Antes de subir os degraus do coletivo, aquele dia, antes calmo e claro, muda a cor, dando passagem  ao  cinza de um céu de nuvens carregadas.
Entre homens e mulheres e  jovens, destacavam-se os olhares preocupados com horários a cumprirem, afazeres,  trânsito, e o lugar a ocupar ao adentrarem o veículo.
 Incrível que todas as mulheres, sem exceção, usavam  maquiagem leve e o batom  infalível em várias tonalidades.
Em pleno século XXI, um batom mais colorido, em lançamento chamou à atenção. Bonito, avermelhado, de nome “Tentação”!
A marca, não importa.  A escolha é a livre expressão da  vontade.  Verdade!  Mas a escolha deveria  ser a consciência do respeito.
Súbito, a autoestima é afrontada, marginalizada. Desci! Como não mexer com a cabeça, se o deboche em plena metrópole, vinha assustador  de um jovem bem vestido, cursando faculdade, corte ousado nos cabelos, com seu olhar fulminante a pronunciar em tom crespo, rude, sem mais nem menos, palavras deprimentes à mulher que lindamente ousara usar a sua alegria na cor vermelha de um batom?  Boca de Prostituta?   Boca que engole o grito, e prova do sal da lágrima de dor...
Dor! Dor de choque...   
Ainda se ouviam frases e sussurros que se perderam no eco da ilusão dos corredores daquela longa passarela de inconsequência e do preconceito. Na verdade, a bagagem de cada um é mérito próprio. Decerto, o jovem universitário não havia passado pelas aulas de História Geral e, essencialmente, pela origem do batom. 
O batom vermelho já foi discriminado. Verdade! Antigamente era cor e coisa de prostituta!  Sim, as mulheres da zona, as vagabundas assim denominadas.

Em meados do século XIX qualquer tipo de maquiagem era tabu e as mulheres que usassem batom eram consideradas sexualmente disponíveis. Com o tempo, a maquiagem foi aos poucos liberada.  Mas os tons das cores do vermelho ao rosinha mostravam o grau de seriedade das moças. O tom vermelho era considerado sexualmente apelativo. Os lábios femininos tornam-se mais vermelhos quando excitadas. E as formas das embalagens dos batons foram desenvolvidas  com a finalidade de  aumentar a sexualidade feminina e as vendas. Um bastão e um toque nos lábios.
As atrizes e prostitutas  consideradas  independentes usavam maquiagem forte e eram extremamente criticadas.
Veio  a Primeira Guerra, não só a Íntima individual, dessa vez o choque mundial. E veio junto um movimento  chocando a sociedade por inteiro. Mulheres  não só de batons, mas de  roupas masculinas, cabelos curtíssimos, encorajando  todas as mulheres a aderirem a nova moda. E vieram os filmes com as musas  de Hollywood . E vieram multicores em batons. E o batom vermelho foi  transformado em objeto de estilo, audácia e sedução.
Esse que surgiu há mais ou menos 5 mil anos no Egito, usado por Nefertiti, a rainha egípcia esposa do faraó Akhenaton. Os lábios femininos, portanto, já eram pintados mil anos antes da era de Júlio César. Cleópatra esmagava besouros vermelhos para obter colorações avermelhadas. A popularidade do batom começou apenas no século XVI, na Inglaterra, durante o reinado da rainha Elisabeth I, cujo padrão de moda na elite era ter a face o mais branca possível e os lábios bem vermelhos.
No século XX o batom finalmente conquistou todas as mulheres do mundo. Eles foram adotados não só pelas cores, mas também pelos resultados de beleza e proteção dos lábios.
E o "Batom Vermelho" em minha boca é alegria, sedução, o feminino em comunhão com a escolha e o prazer de ser mulher!


Maria das Graças Araújo Campos. BATOM VERMELHO.
Graça Campos, 07/03/2016.


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